O despertar da lucidez

Uma tarde qualquer, o dia do mês ou da semana não importa, pois é apenas uma convenção humana para delimitar o tempo que se perde com certas bobagens no decorrer dos dias, o homem de roupas azuis, que assim será chamado, morava em uma casa frente à do meu pai, estava sentado em uma cadeira no seu jardim com as mãos enterradas no rosto oferecendo aos observadores uma visão melancólica. O homem de roupas azuis sempre se vestia dessa maneira, e ninguém soube o porquê, aparentava estar na faixa etária dos cinqüenta e seis anos e resida naquela casa há aproximadamente trinta e quatro anos. Nunca se casara, fora sempre um homem recatado, obra do celibato, gostava de contemplar seu jardim às tardes, certamente se deliciava com esse momento único e infindável. Mas nessa tarde havia algo misterioso e incompreensível com o homem de roupas azuis, não contemplava o seu jardim como antes, mas o ignorava como num ato desesperador do destino, assim permanecendo até o anoitecer quando se retirou para o interior da casa. Não só acredito que fora dormir, pois, o interior da casa estava uma penumbra, mas também arriscaria dizer que fora sonhar com leões, pois, esses animais são os mais fortes e belos da natureza, e, assim como esses felinos, ele seria forte daquele dia em diante. Mudei-me para outra cidade um tempo depois e nunca mais tive notícia desse homem. Fiz um jardim em minha nova casa e todas as tardes, essas que Deus concede, lembro-me dele e sinto um nó na garganta como se fosse chorar. Mas, gostaria de chorar muito para então regar o meu jardim, e que minhas lágrimas fizessem brotar a mais linda flor do mundo, a qual seria uma homenagem ao homem de roupas azuis. Ele poderia ter sido um grande amigo, mas, a minha falta de coragem deixou-o ir. Aquele foi o meu último ato de covardia. Agora, não perco mais nenhum amigo, ao contrário – rego minhas amizades com minhas lágrimas de alegria e pura sinceridade. Foto extraída do site www.ericandjoan.com/ antarctica/bwsunset.jpg

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