Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Tecendo a manhã


Este é um dos poemas mais belos e sublimes que já li. Nele, João Cabral de Melo Neto deve ter dado o sangue para compor algo tão indescritível.
Sem delongas. Segue abaixo a maravilha.
Paz e amor a todos.


João Cabral de Melo Neto
Tecendo a Manhã


1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Entre um Machado e outro


Este ensaio, escrito pelo colunista da Veja Roberto Pompeu de Toledo, sobre o imortal escritor Machado de Assis, conta-nos um pouco sobre o homem que, assim como muitos escritores deste idioma, tornou bela nossa Língua Portuguesa.
Roberto não só "rabisca" alguns pontos da vida e obra do escritor, incluindo alguns momentos históricos do Brasil, mas também, menciona o livro Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro, de Daniel Piza.
Este texto, sem dúvidas é muitíssimo interessante. Quem não gostar de Machado de Assis, que seja "internado num manicômio".


Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

"Entre um Machado de Assis e outro"

Contrastes entre o autor e o homem suscitados por uma nova biografia do grande escritor

Esse Machado de Assis... Um clássico, segundo Italo Calvino, é uma obra que nunca esgota o que tem a dizer. É o caso de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro. Mas também uma vida, e especialmente a vida dos autores de clássicos desse porte, nunca esgota o que tem a dizer. O Machado de Assis que ressurge na biografia escrita pelo jornalista Daniel Piza (Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro) nos diz coisas diferentes do Machado das biografias anteriores. Esta é a primeira biografia em que o grande escritor aparece já em plena posse da condição de crítico social a que foi ungido por estudos como os de Roberto Schwarz ou Raimundo Faoro. O Machado de Daniel Piza apresenta-se numa interação com seu tempo muito maior do que na biografia pioneira de Lúcia Miguel Pereira, de 1936, ou na de Raimundo Magalhães Júnior, de 1981. Nas palavras do novo biógrafo, Machado "conseguiu descrever um mundo e, ainda, revelar sua dinâmica subjacente".
Esse Machado... Como aqui não é lugar de resenha literária, fiquemos com sugestões menos graves trazidas pela leitura do livro, rico de informações e análises, de Daniel Piza. Esse Machado... Como todo ser humano de boa cepa, ei-lo um poço de contradições. Em certa época, exerceu o cargo de examinador dos textos que se candidatavam à montagem nos teatros. Quer dizer: foi um censor. E a seu lápis não faltou rigor contra as situações "vulgares" e os termos "impróprios". O mesmo Machado, na crítica que escreveu, em 1878, a O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, mostra-se escandalizado com a "concupiscência" das personagens. Eis um autor severo e moralista. No entanto, moralismo por moralismo, a adúltera Luísa de O Primo Basílio acaba condenada por Eça à desgraça e à morte. Já as adúlteras de Machado escapam ilesas – seja a Virgília das Memórias Póstumas, seja a Capitu do Dom Casmurro, a considerar que foi mesmo adúltera.
O Machado dos livros prima por um ceticismo vizinho da anarquia. Brás Cubas é um anárquico já a partir da dedicatória de suas memórias, em louvor "ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver". Já o Machado da vida real tinha a vocação da ordem. Foi um exemplar funcionário do Ministério da Agricultura. Um de seus chefes, Francisco Glycério – feito ministro já no período republicano –, pintou-o como um subordinado que se desfazia em mesuras. Era tão amigo das instituições que não escapou à tentação de institucionalizar a literatura, fundando a Academia Brasileira de Letras. Depois, opôs-se ao ingresso nela de tipos como o poeta satírico Emílio de Meneses, conhecido pela língua indomável e pelos hábitos boêmios. Machado dissecou, em seus livros, a sociedade do privilégio e do pistolão que era a sociedade do Segundo Reinado. Ele próprio, no entanto, agarrou-se ao que ela poderia lhe dar. Cultivou relações com os políticos mais importantes do período, e a alguns, como o visconde do Rio Branco, se ligou intimamente.
Na obra, o ceticismo visceral levava-o a rir dos regimes políticos. É famosa a passagem do livro Esaú e Jacó em que o dono da Confeitaria do Império tem o azar de mandar pintar uma nova tabuleta para seu estabelecimento justamente às vésperas da proclamação da República. E agora, que fazer? Trocar o nome para Confeitaria da República? Mas... e se sobreviesse nova reviravolta política? Uma idéia foi adotar o nome "Confeitaria do Governo". Mas, nesse caso, as oposições não poderiam vir a apedrejá-la? O jeito foi rebatizar a casa com o nome do proprietário. Virou a "Confeitaria do Custódio".
O Machado de Assis pessoa física primou pelo respeito tanto à Monarquia quanto à República. Na mocidade, escreveu versos em louvor de dom Pedro II. Na maturidade, foi condecorado pela princesa Isabel. A proclamação da República chocou-o, ainda mais do jeito como se deu – por um golpe militar que expulsou do país um imperador já velho e doente. Logo, porém, conciliou-se com o regime. Em 1897, compareceu à festa de inauguração do Palácio do Catete como sede da Presidência da República. Em sua crônica seguinte, considerou que o evento deixou "impressão forte e profunda" e caracterizou-se por "raro esplendor".
Não se tomem os contrastes entre vida e obra, aqui alinhavados meio ao desalinho, como desrespeitosos ao mestre. Já não fosse que artista algum tem a obrigação de viver de acordo com a obra, considere-se que suas reações são de alguém que nasceu na pobreza, com pele mestiça, e, ao contrário de seus personagens ociosos, teve de batalhar cada centímetro de avanço na vida. Se aqui se registraram os vaivéns entre o homem e o escritor, foi para justificar uma conclusão suscitada pelo livro de Daniel Piza: que prato não seria o Machado de Assis de carne e osso para o escritor Machado de Assis! Que grande personagem de Machado de Assis não é o Machado de Assis de verdade que viveu no Rio de Janeiro, escreveu livros, amou Carolina e não teve filhos: não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Disponível em . Acesso: 24 jun. 2008.

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Can't stop


Olá.
Domingo (09/11/2008) fui ao show do Maroon 5 no Via Funchal. Antes do show, estava um pouco receoso do quê encontraria no palco daquela casa de espetáculos.
Não era muito fã dos caras. Só conhecia as "babas" (músicas que qualquer um conhece, e/ ou, executadas até a exaustão pelas rádios FM): This love(lembrei do Pantera, rs), She will be loved e Sunday morning. Gostava, admirava, achava legal e ponto.
Porém, minha linda garota, que é uma grande admiradora dos caras, emprestou-me os dois cds que a banda lançou até o momento. Acredite - pirei! De verdade mesmo. Achei o som do Maroon 5 muito bem tocado, dançante e alegre, mesmo que ao ouví-los lembro-me do Jamiroquai e de soul music, os rapazes fazem um som responsa e merecem o respeito da galera que curte boa música.
O show, propriamente dito, foi, sem dúvida, muito bom. O vocalista, Adam Lavine, é um cara muito carismático e divertido - não parou por um minuto de agitar a platéia e pedir a participação de todos os presentes. E, devo afirmar - as músicas ao vivo ganharam mais vida e energia, ficaram menos plásticas do que no cd (show é assim mesmo - as músicas provocam nossas sensações).
Sem contar que, a presença de lindas pessoas, tornaram o show mais divertido e agradável: minha garota, a irmã e amiga dela. Segue aqui um comentário dos caras sobre os shows nessas terras ensolaradas:

"We’re about to leave the hotel for the show in Belo Horizonte in Brazil… Another big city… the people here that we’ve met have been so nice, and the people coming to the shows have amazing energy…
Thanks very much everyone… MUITO OBRIGADO!!!"

Hope everyone is feeling great today…
LOVE,
jrc

Ouça a música If I never see your face again - e "jump at the rhythm"!
Abraços.

Terça-feira, Novembro 04, 2008

Parte I


A mesma frase, como o gotejar de uma torneira no meio da noite, ressoava na mente do advogado de terno marrom: “Entendo como, mas não entendo porquê”.
Residia em uma casa modesta, quatro cômodos era a medida da simplicidade daquele homem, em um bairro que, amiúde, sucumbia à especulação imobiliária das grandes cidades. Aquele silencioso lar, não era muito longe do escritório que lhe garantia o sustento mensal. Era uma função de valor, afirmava a todos que conhecia: “defender a justiça, as pessoas não é algo nobre?”
Mas, o momento que mais o deliciava era quando pisava no solo sagrado do bairro em que morava, desde de seu nascimento.
Em outros tempos, os da infância, na rua sempre havia o movimento da felicidade dos moradores. Os vizinhos, assim acreditava, adoravam palmilhar os pés naquele asfalto sacrossanto. Como amava aquele bairro!
Lembranças eram nutridas e temperadas com o sal, cuja nascente eram aqueles olhos, que acariciavam a paisagem de uma tarde de verão.

O advogado de terno marrom


Olá.

Decidi iniciar algo que não estou certo se renderá empenho em continuá-lo, ou não. Porém, há coisas que insistem materializar-se em nossas vidas.
Este é o caso do advogado de terno marrom. Não sei o por quê, exatamente, ser um advogado e, o mais insólito, de terno marrom. Gosto de marrom, mas não muito. O ofício da advocacia, creio pelo fato de haver muitos escritores advogados ou advogados escritores, portanto, a personagem ser esse.
As atualizações surgirão conforme as idéias bafejarem em minha cabeça. Não espere muita coisa. Haverá, também, algumas colagens de falas, textos e características de obras de autores consagrados da literatura mundial.
Então, “enjoy it”!